au revoir, Mme. Moreau!

Todos sabem que, no dia em que tiver carteirinha do Clube da Esquina, eu quero estar na fila pra tirar a minha. Pois a grande safra de músicas geniais, criadas a partir da amizade entre Milton Nascimento, os Borges, Beto Guedes, Toninho Horta, Nelson Ângelo e outras lendas teve como estopim o filmaço de Truffaut, em 1964. Pois Márcio Borges convenceu, após muita insistência, ao amigo Bituca a assistir com ele Jules e Jim.

Pausa. Nesse filme, a atriz Jeanne Moreau interpreta a linda Catherine, personagem amada pelos dois amigos do título. Milton resistia a acompanhar o amigo, excitadíssimo desde que vira o drama pela primeira vez, em Belo Horizonte. Dizia que nenhum filme poderia ser tão brilhante como descrito. Afinal, lembra o famoso adágio: "leia o livro, veja o filme, espanque o diretor que não entendeu patavina". Mas foi. O diretor entendeu o espírito da coisa. E eles chegaram à projeções às duas da tarde, e só saíram do cinema às oito da noite, após três sessões na enfiada...

Milton nos fala, terminada a sessão, olhos ainda cheios de lágrimas: "Puxa vida, bicho. É genial assim, sim. Nossa”. A emoção tomou conta deles. Naquele dia, iniciaram sua saga de converter os sentimentos provocados pelo filme, e por tantas coisas da vida, em músicas lendárias. São as primeiras canções da lendária parceria que daria no Clube da Esquina.

Nas palavras de Márcio, retiradas do livro (um dos meus de cabeceira, por sinal) "Os sonhos não envelhecem": “Bituca deixou-se levar – e me levou consigo – para muito, muito longe, para uma reunião de melodias intrincadas e misteriosas, entoadas em puro improviso de cristalinos falsetes, coisas que nem eu, nem ninguém, nem ele próprio, jamais escutáramos antes. Era como se estivéssemos na Floresta Negra, juntos a Jules, Jim, Catherine”. Os dois criaram três músicas naquela noite: "Novena", "Gira Girou" e "Crença".

Corta pra 1993. Milton já era um nome consagrado. Numa de suas idas a Nova York, um amigo americano disse que gostaria de apresentar "uma pessoa" a ele. Indo de busão, foram até um prédio singelo, onde uma mulher abriu a porta de um apartamento com um sorriso charmoso que fez as pernas de Bituca tremerem. Era Catherine, ou melhor, Jeanne Moureau. Naquela noite, Milton, na sua proverbial timidez, contou para Jeanne da sua cumplicidade na gênese de suas canções: “as três sessões, o pranto, a febre de criar, as músicas nascidas em seguida, a descoberta de um destino e tudo o que se seguiu”. Quando ele terminou, Jeanne Moreau tinha lágrima nos olhos. “Ontem fui eu a levar essa emoção através do mundo. Hoje é você quem o faz. Amanhã serão outros. Vá em frente”, disse a grande dama francesa.

Na voz da musa, a canção "Joana Francesa", de Chico Buarque, ganhou o mundo. Em 1973, Jeanne Moreau veio ao Brasil filmar o longa homônimo à canção, de Cacá Diegues. O filme foi rodado em Alagoas, em uma fazenda perto da vila onde nasceu o Marechal Deodoro. A interpretação, tanto cantada quanto da Joana personagem, é lendária. Aqui, uma palhinha:



Jeanne foi, é, será, uma musa do cinema, do tempo em que musas não precisavam mostrar o bumbum gratuitamente, ou turbinar seios com silicone para ter destaque. Usavam algo chamado talento, estilo, carisma, trabalho de palco, algo meio raro no mercadão hoje em dia. Ela trabalhou com monstros sagrados da sétima arte: Fassbinder, Truffaut, Diegues, Antonioni, Vadim, Welles. Já idosa, ao ser indagada pelo rótulo de "diva", Mme. Moreau falou: "não tenho como impedir que me chamem de diva. Esses títulos de ‘musa’, ‘estrela’, ‘lenda viva’ não têm nenhuma influência em minha rotina. Não tenho como fazer as pessoas calarem a boca, nem tento evitar que me chamem assim. Se sou merecedora de tudo isso? Não sei”.

Nós sabemos. A ti devemos duplamente. Primeiramente, pela tua obra de atriz, diretora, cantora, digna dos prêmios recebidos ao longo de uma linda carreira. Outra, pela dívida eterna que os amantes da boa música têm para contigo, Mme. Moreau. Sem Jules et Jim, aqueles dois amigos talvez levassem mais tempo a celebrar a amizade, o belo, a trazer sua poesia e canção à tona. Au revoir, Mme. Moreau!

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