alguém me avisou pra pisar esse chão devagarinho

A terça feira, dia 17, amanheceu mais silenciosa no Salgueiro... Perdemos dona Ivone Lara, grande diva do samba, herdeira da tradição das grandes damas do samba, como tia Ciata,  uma compositora e tanto, profissional da área da saúde por anos, autora de vários sambas, desses que o pessoal se pega cantando meio sem querer, sem lembrar de quem é a autoria. "Sonho meu", "Sorriso negro", "Acreditar", "Alguém me avisou"...E foi cantando a dor da negritude, da opressão sobre o negro e a negra no Brasil, que dona Ivone chegou, pisando esse chão devagarinho. 

Aqui esboço uma pequena biografia da diva.  Nasceu no Rio de Janeiro, no dia 13/04/1921.  Seus pais, dona Emerentina, cantora de rancho, do Rancho Flor do Abacate e João da Silva Lara, mecânico de bicicletas, violonista e componente do Bloco dos Africanos. Aos seis anos de idade, ficou órfã de pai e mãe. Estudou no internato do Colégio Orsina da Fonseca, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, onde permaneceu até os 16 anos. Adolescente, era admirada por suas professoras de música no colégio, ninguém menos que dona Lucília Villa-Lobos, esposa dum certo maestro Heitor, e profe Zaíra Oliveira, primeira esposa de outra lenda, o Donga. As profes indicaram a menina Ivone para o Orfeão dos Apinacás, da Rádio Tupi, cujo regente era o marido da profe Lucília, um tal Heitor Villa-Lobos. Saindo da escola, foi morar na casa de seu tio Dionísio Bento da Silva, que tocava violão de sete cordas e fazia parte de grupo de chorões que reunia gente da pesada, como Pixinguinha e Donga, entre outros. Com o tio, aprendeu a tocar cavaquinho. Em 1945, dona Ivone mudou-se para Madureira e começou a frequentar a Escola de Samba Prazer da Serrinha, na mesma época em que começou a compor sambas para esta escola. Nessa época, o preconceito contra mulher no samba a fez "doar" seus trabalhos a um primo, de nome sugestivo: Fuleiro (também compositor), como se fossem dele... realmente...

Casou-se, em 1947, com Oscar Costa, filho de Alfredo Costa, presidente da Escola de Samba Prazeres da Serrinha. Nesta época, passou a frequentar a Escola, onde aprimorou seus dotes de sambista e conheceu lendas do samba, como Aniceto, Mano Décio da Viola e Silas de Oliveira, que mais tarde seriam seus parceiros em algumas composições. E nesse mesmo ano fez um samba com o qual a escola desfilou “Nasci para sofrer”. Formou-se Enfermeira, Assistente Social, fez especialização em Terapia Ocupacional (te mete com a diva!!!!), dedicando-se a trabalhos em hospitais psiquiátricos, tendo trabalhado no Serviço Nacional de Doenças Mentais, com a doutora Nise da Silveira.

Em 1965 ingressou na Ala de Compositores do Império Serrano e compôs, com Silas de Oliveira e Bacalhau, o clássico "Os cinco bailes tradicionais da história do Rio" ou “Os cincos bailes da corte”. É madrinha da ala dos compositores de seu Império Serrano e desfilou desde 1968 na ala das baianas. Apesar de tantos trabalhos, Dona Ivone só gravou  seu primeiro disco pela gravadora Copacabana, o raríssimo Sambão 70, produzido por Sargenteli e Adelson Alves. Tomou gosto pela coisa, e lançou "Samba minha verdade, samba minha raiz", pela gravadora Copacabana.

Aposentou-se do hospital em 1977, passando a dedicar-se, exclusivamente, à carreira artística. Nessa época suas músicas passaram a ser resgatadas e gravadas por diversos artistas, como Maria Betânia e outros monstros sagrados da MPB. Recebe homenagem dos franceses no Festival Latino promovido pela Eurodisney, França, participou do festival Panafest99 em Ghana, África. Em outubro de 1999, recebeu a Medalha Pedro Ernesto da Vereadora Jurema Batista, na Câmara  dos Vereadores da Cidade do Rio de Janeiro. Reconhecimento!! Em 2001, recebe o Prêmio da Academia Charles Cros, Paris, França, pelo  CD internacional Nasci pra sonhar e cantar. Em agosto de 2002, recebeu o Prêmio Caras de Música, na categoria Melhor Disco de Samba, com o CD Nasci para sonhar e cantar.Em novembro foi a vencedora do Prêmio Shell de MPB, tendo recebido o prêmio pelo conjunto de sua obra em grande festa do samba, no Canecão, no Rio de Janeiro. Em agosto de 2010,  foi a grande homenageada no Prêmio da Música Brasileira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.

No dia 13 de abril de 2011 Dona Ivone Lara completou 90 anos de idade e entre os eventos comemorativos foi lançado o site oficial www.donaivonelara.com.br, aliás, fonte dos dados desta blogada (cito a fonte e recomendo!!!). Sua Serrinha, em 2012, lhe homenageia, com o enredo da Escola de Samba.

Em 2014, dona Ivone foi a homenageada na 19ª edição do Trem do Samba. Um mês antes, Dona Ivone participou do primeiro dia de gravações do "Sambabook" em homenagem à sua carreira da gravadora Musickeria. Cantores como Maria Bethânia, Elba Ramalho, Criolo, Zeca Pagodinho, Martinho da Vila, Arlindo Cruz, Adriana Calcanhoto e Zélia Duncan fizeram versões de suas canções, enquanto a própria dama gravou com Diogo Nogueira uma canção inédita, composta com seu neto André.

A mestra, diva, compositora maior do Rio de Janeiro, eu equiparo sua produção musical à de Cartola e Nelson Cavaquinho, dentro do universo do samba carioca. Reconhecida em vida, com todas as honras! Dela, a frase lapidar: "a música nos conecta a nós mesmos, aos outros e à alma do Brasil". Ah, e não basta chamá-la apenas de Ivone Lara: o respeito e a admiração que impôs a MPB o transformaram em Dona Ivone Lara, como convém a uma grande dama. A sambista também teve trabalhos como atriz, fazendo filmes, e foi a querida e eterna Tia Nastácia de Monteiro Lobato em especiais do programa Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Me arrisco a dizer que Dona Ivone Lara foi a maior compositora do samba e da música brasileira. Num país de muitas e fantásticas cantoras, e poucas mas excelentes compositoras, nenhuma outra mulher teve tantas vozes cantando suas músicas ou gravadas como ela. E olha que tem Joyce Moreno, Adriana Calcanhoto, Rita Lee, Diana Horta, Marisa Monte, Marina Lima, Dolores Duran, Maysa Mattarazzo, Tetê Espíndola e muita gente boa pelaí ainda compondo! No entanto, por toda sua história de vida, todos os desafios que encontrou, me atrevo, sim, a chamar Dona Ivone Lara de maior compositora popular brasileira!

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